Desde criança ela encantava borboletas com seu canto. Entoava melodias que atraíam toda sorte de lepidóptero para perto de si. Brancas, negras, multicoloridas... Todas as borboletas surgiam de todos os lugares e esvoaçavam a vida da menina. Eram companhia que ela tinha... Era companhia que elas tinham.
Quando a tarde se despedia, entretanto, as asas todas iam embora, decerto em busca de abrigo para repousar em sono tranquilo. A menina, então, sozinha ficava - sozinha se sentia.
Tentara, vezes algumas em tempos antigos, cantarolar à sombra da noite, chamar borboletas que acompanhassem seus sonhos. Quem vinha de noite, porém, eram somente as mariposas – escuras e peludas, antipoéticas...
Certo dia, quando suas amigas lepidópteras se foram, sentiu tão forte a tristeza de tanto ser sozinha que chorou. Chorou lágrimas grossas e fartas, gotas que caíram na terra e encharcaram-na de barro. Chorou tanto que ficou fraca, ali mesmo se deitou e dormiu.
Ao despertar, notou – incrédula – a mudança. Dormira na lama e acordava em meio ao jardim mais belo e perfumoso que jamais imaginaria ser possível existir. Cheia de alegria, cantou com a intensidade mais forte que nunca antes havia sentido. E recebeu suas borboletas com o sorriso mais sincero que nem pensava ser capaz de criar.
Desde então, nunca mais elas precisaram se despedir quando a tarde ia embora. Aquele jardim era quarto íntegro de aconchego e conforto para elas todas – borboletas e menina.
E tão mais felizes as borboletas se tornaram que decidiram ainda mais alegrar a amiga. Deram-lhe um presente enquanto dormia. E em seus sonhos a menina se viu cheia de asas, esvoaçando em meio a toda sorte de borboletas...





